“O coletivo Fórum Verde Permanente de Parques, Praças e Áreas Verdes reuniu-se esta segunda-feira, 20, com a Prefeitura de São Paulo para solicitar a participação dos conselhos dos parques municipais nas definições e encaminhamentos dos protocolos adotados nos parques visando a proteção dos usuários no que se refere à epidemia do COVID-19.
A Prefeitura aceitou elaborar uma agenda em conjunto com o Fórum Verde para que seja reduzido o risco de contaminação dos usuários dos parques. Também aceitou criar um tipo de monitoramento da questão da pandemia em conjunto com os conselhos e com convidados pelo Fórum Verde para participar do debate, como o Ministério Público Estadual, que esteve presente na reunião com o promotor de meio-ambiente da cidade de São Paulo, Dr. Carlos Henrique Prestes Camargo. Também estiveram presentes pesquisadores do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Ivan Maglio e Vivian Blaso, além Leonardo Maglio, representando a Comissão de Saúde, Promoção Social, Trabalho Mulher da Câmara Municipal de São Paulo, e o gabinete do vereador Gilberto Natlaini” ✊🏼Nós do @cidadesafetivas defendemos a ciência como base estratégica para as decisões de interesse comum da sociedade. Adotamos a estratégia de Advocacy para incidir em políticas públicas em defesa das áreas verdes em São Paulo. Por isso, nosso engajamento com o coletivo na disseminação da pesquisa sobre espaços públicos urbanos desenvolvida no Instituto de Estudos Avançados – IEA USP, contribuíram para articulação junto à sociedade civil e o poder público fortalecendo a importância dos diálogos com a sociedade civil, ciência e a gestão pública, afirma Vivian Blaso idealizadora do Cidades Afetivas e pesquisadora no Instituto de Estudos Avançados da USP A matéria completa está no link👉🏼https://www.forumverdepermanente.eco.br/…/forum-verde-quer-…#parquesurbanos#vidaemcomum#advocacy#politicaspublicas#ativismosurbanos#vidaemcomum#bemviver#convivialismo#cidadesafetivas#emdefesadosparques @svmasp #participacaopopular#incidenciapolítica
2ª Webconferência do ciclo Prevenir, Dialogar e Cooperar: Novos Caminhos Pós-Covid-19
O objetivo desse encontro é colocar em diálogo as perspectivas de autogestão e auto-organização comunitárias atuais e futuras para o enfrentamento da Covid-19, nos dias atuais e ao encaminhamento de perspectivas futuras.
Para Aldir Blanc, morto pela Covid19, e Flávio Migliaccio, que desistiu de viver, quando constatou que a humanidade não deu certo.
[Em 4/5/2020].
Vírus-zumbi que assola os quatro cantos da Terra, a pandemia da Covid-19 exige uma reflexão complexa das Humanidades, o que aliás permanece incipiente no Brasil. Existem trágicas quantificações da expansão da contaminação, reiteradas recomendações de isolamento e confinamento, nem sempre cumpridas, benevolentes ações de ajuda mútua. O que se constata, porém, é a inépcia e incapacidade do governo federal de gerir essa geopolítica do caos e do medo.
Com um fanático narcisista no poder, portador de visíveis sintomas de psicopatia, de desconexão com a realidade, que conta com a fidelidade fanática de seu clã, além de apoiadores insensatos, filofascistas seriais, gurus fundamentalistas, militares de caserna, o Brasil caminha na contramão de estados democráticos contemporâneos, empenhados em conter a disseminação desse flagelo planetário por meio de ações globais de cooperação, contra as quais o país sempre se perfila, ao lado dos Estados Unidos e mais doze países.
Regressão ética, ausência de solidariedade e fraternização, de preocupação com o outro são termos insuficientes para definir tais atitudes. Existe um objetivo explícito de desdizer organismos internacionais como OMS, ONU, anular recomendações sanitárias nacionais e internacionais, minimizar os efeitos da disseminação, acabar com quarentenas e confinamentos, exigir que todos voltem ao trabalho.
Exceção deve ser creditada às agências de pesquisa federais, estaduais, municipais que, apesar da exiguidade de verbas e cortes insensatos de programas de pesquisa, se empenham em decifrar a Covid-19, identificar possibilidades de combate, ampliar leitos e UTIs para abrigar contaminados, testar medicamentos, colaborar para a criação de uma vacina. Se os vírus que, cotidianamente, invadem computadores e plataformas digitais continuam a ser combatidos, e com certo sucesso, esse vírus-zumbi que invadiu corpos e mentes desafia a todo tempo os múltiplos sentidos da morte e da vida, pondo à prova a impermanência, a arrogância, a desigualdade, o egoísmo, a solidariedade.
A filosofia cumpre importante papel nesse processo comandado por Tânatos. Cada um a seu modo, os filósofos tentam entendê-lo, expondo suas percepções sobre o caráter multidimensional da pandemia. Em A filosofia da pandemia, por exemplo, publicado na Ilustríssima da Folha de São Paulo, de 12 de abril último, encontram-se expostas assertivas, conjecturas, utopias, predições de vários pensadores contemporâneos. Excelente trabalho da jornalista Úrsula Passos, ilustrado por Camila Rocha, que serve de termômetro de uma filosofia cindida entre o ceticismo, a descrença, a irracionalidade, a imotivação.
Sem pretensão de analisar o conjunto, pode-se destacar: o ‘socialismo de emergência’ de Slavoj Zizek, o retorno do ‘estado de exceção’ do Homo Sacer de Giorgio Agamben, a dissipação da razão de Alan Badiou, a tentativa de entender a soberania num contexto de identidades sexuais e raciais desarticuladas, de Paul Preciado, a pujança do capitalismo pós-pandemia de Byung-Chul Han, para quem a China venderá seu ethos para o resto do mundo.
Um outro lado dos saberes, porém, empenha-se em trazer à reflexão fontes que podem ampliar a percepção do ser-aí, desse mundo pandêmico. Definido por Heidegger em Ser e Tempo1, o cerne do ser-aí se expressa na cotidianidade do ser humano, sempre às voltas com os dilemas da angústia e da morte. Para ser autêntico, esse ser-no-mundo sempre pergunta, questiona. Essa é a essência do ato de conhecer, que denega o dualismo natureza e intelecto, corpo e mente, essência e existência, razão e desrazão.
Esse macro-objetivo é a marca dos pensadores aqui elencados. São filósofos, psicanalistas, romancistas, poetas – vivos ou mortos – que, no transcorrer de suas vidas, problematizam os múltiplos sentidos da iminência da morte, da preservação da vida, do desassossego da psique, da solitude do ser. Reler os fragmentos de seus ditos e escritos se impõe como algo fundamental para esses tempos viróticos e sombrios que nos assolam e nos deixam atônitos, estarrecidos, perplexos diante de um devir incerto, indeterminado, obscuro, indeliberado. Este Breviário da vida e da morte põe em questão a pretensa onipotência do homem em dominar o mundo, a vida, a Terra, o cosmo e ignorar a existência do outro. Afinal, Montaigne em seus Ensaios já afirmava, “fazer filosofia é aprender a morrer”. Edgar Morin – março de 2020.
A crise da Covid-19 mostra que a mundialização é uma interdependência sem solidariedade. O movimento da globalização produziu a unificação tecnoeconômica do planeta, mas não se empenhou em fazer progredir a compreensão entre os povos. Perigos planetários – ecologia, armas nucleares, desregulação da economia – criaram uma comunidade de destino da qual os humanos não tomaram consciência. O vírus esclarece hoje de maneira imediata e trágica essa comunidade de destino. Será que tomaremos consciência disso? Como não existem solidariedade internacional e organismos comuns capazes de tomar medidas globais, o que se constata é o fechamento das nações nelas mesmas. O Novo Coronavírus nos diz enfaticamente que a humanidade como um todo deve buscar uma nova via que abandonaria a doutrina liberal em prol de um New Deal político, social, ecológico. A nova via corrigiria os efeitos da mundialização criando zonas desmundializadas que salvaguardariam as autonomias fundamentais. Thomas Steams Eliot – 1922
Abril é o mais cruel dos meses, criando
Lilases na terra morta, mesclando
Memória e desejo, atiçando
Raízes tardas com chuva de primavera.
Cidade irreal,
Sob a névoa marrom de uma aurora de inverno
Multidões afluíram à ponte de Londres, tantos,
Não sabia que a morte desfizera tantos.
Suspiros, curtos e infrequentes, eram soltos,
E cada qual fitava à frente dos seus pés.
O Bibliotecário, 1562. Giuseppe Archimboldo.
Albert Camus – 1947
A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes. É claro que nada disso era absoluto. Pois se é verdade que todos os separados chegaram a esse estado, é justo acrescentar que não chegaram todos ao mesmo tempo e que, da mesma forma, uma vez instalados nessa nova atitude, lampejos, retrocessos, bruscos estados de lucidez levaram os doentes a uma sensibilidade mais nova e mais dolorosa. Eram necessários para isso momentos de distração, em que eles formavam algum projeto que implicava o fim da peste. Jean Baudrillard – 2001
Terrorismo e vírus encontram-se em todos os lugares. Há uma perfusão mundial do terrorismo (e do vírus) como fantasmas que acompanham a totalidade do sistema de dominação, sempre pronto a se revelar como agente duplo. Não existe mais linha de demarcação que permita circunscrevê-lo, encontra-se no próprio cerne da cultura que o combate. A ruptura visível (e o ódio) que, no plano mundial, expõe explorados e subdesenvolvidos a exploradores e desenvolvidos cimenta secretamente a fratura interna do próprio sistema dominante. Esse sistema pode enfrentar qualquer organismo visível mas contra o terrorismo de estrutura viral não tem poder nenhum. Parece que ninguém compreendeu que o Bem e o Mal crescem simultaneamente em poder e movimento.
Carlos Drummond de Andrade – 1928
Impossível compor um poema a essa altura de
evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja –
de verdadeira poesia.
Um sábio declarou que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria como
um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema). Boris Cyrulnik – abril de 2020.
O confinamento é uma proteção psíquica necessária à sobrevivência e, ao mesmo tempo, constitui uma evidente agressão psíquica. Nos dias atuais é preciso respeitar o ‘distanciamento social’ para evitar dezenas de milhares de mortes. Existem maneiras de enfrentá-lo. Os indivíduos vão redescobrir ou inventar rituais familiares, dedicarem-se a projetos pessoais, tocar um instrumento musical, ler, escrever, manter contato com familiares e amigos próximos. Experiências demonstram que os animais, assim como os humanos, quando são privados da interação com seu ambiente, se descompensam de maneira ansiosa, angustiante, alucinatória e até mesmo delirante. O isolamento sensorial provoca alteração nas funções cognitivas. O diagnóstico por imagem do cérebro demonstra que o isolamento provoca atrofias dos dois lóbulos pré-frontais, sede da antecipação, do sistema límbico, sede da memória e das emoções, mas também uma atrofia da amigdala cerebelosa, sentinela de insuportáveis emoções.
Liev Tolstói – 1903
Quando Deus voltou para ver como os homens estavam vivendo desde que foram expostos a doenças, constatou que a vida deles estava ainda pior. Aqueles que forçavam outros a trabalhar para eles também os forçavam a cuidar deles quando caíam doentes, mas eles próprios, por sua vez, nunca cuidavam dos doentes. Então os homens construíram casas grandes, onde os doentes padeciam e morriam sem a compaixão de ninguém. Ademais, a maioria das doenças foi considerada contagiosa. Se é assim, que se arranjem com seus próprios sofrimentos, disse Deus. E abandonou os homens. Por fim, os próprios homens começaram a entender que, diante da constante ameaça da morte, a única atitude razoável consiste em viver em harmonia cada hora, cada mês, cada minuto que são concedidos a cada um de nós. As doenças não devem ser motivo de separação. Ao contrário devem motivar a união e o amor entre todos. Scott Atran – abril de 2020.
Malgrado nossa relativa fraqueza física, nossa capacidade de criar e manter laços sociais sólidos permitiu à espécie humana dominar todos seus grandes concorrentes biológicos. Gracas à socialização, aprendemos uns com os outros. Quando nossos próximos adoecem, nossa tendência é abraçá-los, reconfortá-los física e emocionalmente. Com o Novo Coronavírus, nos conscientizamos do problema psicológico, social e político que o isolamento social provoca. As limitações do transporte mundial, o fechamento de fronteiras, a proibição de agrupamentos, o isolamento de bairros e, sobretudo, o afastamento de parentes e amigos encorajam comportamentos que só fazem aumentar a solidão. Na realidade, sem ajuda mútua e cooperação – entre vizinhos, comunidades, nações – as epidemias e pandemias podem infectar e matar ainda mais. Philip Roth – 2010
Então quando o trabalho terminou e os garotos foram trocar de roupa na cabana preparando-se para jantar, ele tirou os óculos, galgou o trampolim mais alto e, durante meia hora, se concentrou em executar os saltos mais difíceis de seu repertório. Ao sair da água pela última vez e repor os óculos, não tinha ainda tirado da cabeça o que acontecera – a velocidade com que tudo havia acontecido e a ideia de que era dele a responsabilidade pelo que havia acontecido. Ou a de que o surto de pólio no pátio de recreio tinha origem nele. Ouviu então um uivo altíssimo. Era o uivo da vizinha aterrorizada com o risco de que seu filho contraísse pólio e morresse. Mas ela não apenas ouvira o uivo – ele próprio uivara. Mais tarde, os carros começaram a chegar para levar os meninos de volta para casa. Mais de cem dos duzentos e cinquenta hóspedes da colônia haviam sido levados pelos pais. No dia seguinte, outros dois meninos foram diagnosticados com pólio, e a colônia de férias imediatamente fechou as portas. Michel Maffesoli – abril de 2020.
Esta crise sanitária é sinal de uma crise civilizatória. Vivemos o fim de um paradigma, e isso é mais evidente agora, com a presença da morte a nos rondar. A epidemia atual tem uma expressão simbólica nesse sentido. Mas, sejamos claros, a epidemia é real. Essa possibilidade de perigo é simplesmente a possibilidade de morrer. E, apesar da presença da morte, acho importante que haja manifestações lúdicas, emocionais, por meio de elementos simbólicos. Vivemos agora o ativismo em redes. E são as redes sociais, os fóruns virtuais, os blogs que nos conectam com a alteridade. É lá que as pessoas, durante o confinamento, estão se comunicando, o que é bem paradoxal, eu diria. Para mim, há uma volta de algo cultural e espiritual, uma espécie de ideal comunitário que está assumindo mais força na contemporaneidade. Esopo – 325 – a.C.
Certa vez havia num brejo um rã que gritava para todos os animais: “Eu sou médica, especialista em todos os tipos de remédios!”. Ao ouvi-la, disse uma raposa: “Se você, que manquitola, não cura sua própria deficiência, como é que vai salvar os outros?”. Sigmund Freud – 1915
Na escola psicanalítica podemos arriscar a afirmação de que no fundo ninguém acredita na própria morte; ou, o que vem a significar o mesmo, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua imortalidade. Via de regra, enfatizamos a natureza casual da morte, um acidente, uma doença, infecção ou idade avançada, e desse modo traímos o nosso empenho em vê-la como algo fortuito, em vez de necessário. Um grande número de mortes nos parece terrível ao extremo. Essa postural cultural-convencional diante da morte é complementada pelo total colapso que sofremos quando morre alguém que nos é próximo. Enterramos com ele todas as nossas esperanças, ambições, alegrias, ficamos inconsoláveis e nos recusamos a substituir aquele que perdemos. Então é inevitável que busquemos no mundo da ficção, na literatura, no teatro, substituto para as perdas da vida. Lá encontramos pessoas que sabem morrer, e que conseguem até mesmo matar uma outra. E apenas lá se verifica a condição sob a qual poderíamos nos reconciliar com a morte; de que por trás de todas as vicissitudes da vida nos restasse ainda uma vida intacta. No reino da ficção encontramos a pluralidade de vidas de que temos necessidade. Morremos na identificação com um herói, mas sobrevivemos a ele e já estamos prontos a morrer uma segunda vez com outro, igualmente incólumes. Arthur Rimbaud – 1871
Quando eu atravessar os rios impassíveis
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetavam nus em portas multicores.
Eu era indiferente à carga que trazia.
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Monta a tripulação e finda a algaravia,
Os rios para mim se abriram de uma vez.
Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
Viam turbilhonar marés de verde e azul.
Mathieu Ricard – 2019
Mesmo que não se considere a morte como uma passagem, uma visão salutar dela nos leva a compreender, em nosso nível mais profundo, que a morte é inevitável, que sua hora é imprevisível. Levar em conta tal evidência, permite dar a cada instante que passa um valor inestimável, mesmo que esse instante consista em não fazer nada ou simplesmente olhar um pássaro voar sobre uma árvore em flor. Essa tomada de consciência não é nada mórbida: permite que vivamos melhor e evita que desperdicemos o tempo com coisas desnecessárias. Sejamos inteligentes o suficiente para reconhecer o valor inestimável da vida e decidir o melhor a fazer diante dele, tomando como base o nosso bem e o dos outros. Sêneca afirmava: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas sim que perdemos tempo demais”. Dissipemos a ilusão que consiste em acreditar que temos “uma vida inteira diante de nós”. Não deixemos de lado a compreensão inelutável da morte. Edmilson Felipe – abril de 2020.
Sequer um contato imediato de
um planeta distante, um milagre
de lágrimas no orvalho do sonho,
crianças dançando no teatro de
velas, aquarelas desbotadas na
paisagem urbana.
Nunca mais a semana com dias após outros.
Onde anda você e seu corpo de
carnaval, seu jeito de fotografar a lua
com os lábios, seu sol brilhante na
rua de paralelepípedos?
É
Tudo ganhou novo brilho ou perdeu
o delírio de estar à deriva.
Vivamos a vida, antes que
A devore o Vírus.
Julia Kristeva – março de 2020.
É curioso observar que a palavra ‘viral’ já foi utilizada várias vezes ao longo do tempo. Reações virais fazem parte de nossa realidade política e econômica hiperconectada. A aceleração de nossa civilização chegou a um estado viral e agora essa metáfora nos perturba, pois ela se inscreve no real, é uma ameaça interna e também externa. Talvez não tenhamos defesas imunitárias suficientes e o perigo atinge a todos. Muito têm o vírus, mesmo sem sabê-lo. Alguns sobreviverão, outros não. Sempre me preocupo com a incapacidade contemporânea de viver só. Perdemos o verdadeiro sentido da palavra, da sensação, da partilha, da ternura, do dever e da preocupação com o outro. Não nos damos conta de que a morte está em nós, na apoptose, que é um processo de morte e de regeneração celular. A arte e a literatura se ocuparam com esses temas. Penso em Marcel Proust e Georges Bataille por exemplo. Me considero uma pessimista incansável. Sobrevivi a três guerras: a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a experiência do exílio. Me defronto agora com essa guerra viral. Talvez por isso, eu me arrisque a falar de sobrevivência. Estamos prontos para uma arte de viver, que não terá nada de trágico, mas que será complexa e exigente. Primo Levi – 1958
Vocês que vivem seguros
Em suas cálidas casas.
Vocês que, voltando à noite,
Encontram comida quente e rostos amigos,
Pensem bem se isto é um homem
Que trabalha no meio do barro,
Que não conhece paz,
Que luta por um pedaço de pão
Que morre por um sim ou por um não.
Pensem que isto aconteceu:
Eu lhes mando estas palavras,
Gravem-nas em seus corações
Estando em casa, andando na rua,
Ao deitar, ao levantar;
Repitam-nas a seus filhos. Sylvie Angel – abril de 2020.
Estamos todos mergulhados numa situação que não foi escolhida por nós. Privados das saídas, das distrações habituais, surge um nível de angústia e estresse sem precedentes. Todos se preocupam com o futuro, com que acontecerá com seus próximos. Torna-se necessário não sucumbir no catastrofismo. Confinados, temos a nosso dispor telefones, livros, internet. Temos de reconhecer que o coronavírus é uma batalha. Como em qualquer crise, coisas positivas e novas vão surgir, mas nossa atitude pessoal quanto à felicidade cumpre um importante papel nesse processo. Estudos mostram que espaços reduzidos de intimidade aumentam as tensões. Para se preservar é preciso inventar uma visão metafórica da situação: por exemplo, dizer que estamos todos no mesmo barco para uma longa travessia com tarefas a serem compartilhadas, para que ninguém se afogue ou se estresse demais. Machado de Assis – 1885
Vês um féretro posto em solitária igreja?
Esse pó que descansa, e se esconde e se some,
Traz de um grande ministro o formidável nome
Que tem vivas letras de ouro e lágrimas flameja.
Lá fora uma invasão esquálida braceja,
Como um mar de miséria e luto, que tem fome
E novas praias busca e novas praias come.
Enquanto a multidão, recuando, peleja.
O gaulês que persegue, o bretão que defende
Duas mãos de um destino implacável e oculto
Vão sangrando a nação exausta que se rende.
Dentre os mortos da história, um só único vulto
Não ressurge: um Pacheco, um Castro não atende;
E a cobiça recolhe os despojos do mundo. Edgard Carvalho – 2020
Para os gregos, a morte, a velhice, as epidemias e todos os males do mundo ficavam encerrados na Caixa que Pandora trouxera consigo quando veio habitar entre os seres humanos. A Caixa continha os males que Zeus desejava infligir à humanidade para se vingar do roubo do fogo praticado por Prometeu. Apesar de suas recomendações, seu irmão Epimeteu, apaixonado pela bela Pandora, abriu a Caixa. Desde então, os homens foram condenados a trabalhar, a morrer, a se unirem às mulheres, a se casarem para se reproduzir. As ressonâncias dessa narrativa mítica estão mais vivas do que se supõe nesses tempos pandêmicos, pois na Caixa de Pandora vem sendo incluídos outros males, mais insidiosos e atuais, como o recrudescimento dos autoritarismos que usam a Covid 19, o perigo iminente, para ampliar suas redes de vigilância e punição sem reação ou revolta da população. Hong Kong foi abruptamente silenciado, a China continental instala câmeras de vigilância fora e dentro das casas, em nome da segurança de todos.
Como já foi tantas vezes reiterado, é preciso ficar de cabeça fria e não aderir aos profetas da infelicidade – fundamentalistas, nacionalistas, colapsistas – que acreditam que a mutação de um vírus pode ser o sinal anunciador do fim do mundo. É preciso também afrontar os arautos do ódio, inumanos que não se importam com a preservação da vida e conspiram nos gabinetes do poder. “Acredito piamente que a ciência e a paz triunfarão sobre a ignorância e a guerra”, afirmou Louis Pasteur em Paris, em 1892, na Sorbonne. Que essas palavras ecoem pela Humanidade inteira, e que não nos esqueçamos jamais do enunciado de Heráclito – “Viver de morte, morrer de vida”. Johann Wolfgang von Goethe – 1787
Faz uma semana que o tempo está péssimo, e isso me agrada. Pois desde que estou aqui, não houve um único dia bonito que alguém não tivesse estragado ou envenenado. Se chover, nevar, fizer frio e degelar: ah! penso eu, dentro de casa não pode ser pior do que lá fora, ou vice-versa, e assim está bem. De manhã, quando o sol nasce prometendo um belo dia não hesito em exclamar: aí têm eles de novo um bem celestial que não podem arrancar um do outro. Saúde, reputação, contentamento, repouso! E quase sempre por estupidez, incompreensão e mesquinhez tudo com a melhor das intenções, dizem eles. Às vezes gostaria de pedir-lhes de joelhos para não revirarem suas entranhas com tanta fúria. Edgar Morin – abril de 2020.
Sei que um confinamento temporário será vivido como um impedimento. Os vídeos não podem substituir a ida ao cinema, os tablets a ida à livraria. Skype e Zoom não possibilitam o contato carnal, o tim-tim das taças num brinde. A comida doméstica, mesmo excelente, não suprime o desejo de ir ao restaurante. Documentários não suprimirão a vontade de conhecer de perto as paisagens, as cidades, os museus. A redução ao indispensável desperta a sede do supérfluo. Essa epidemia nos traz um festival de incertezas. Não temos certeza da origem do vírus. Não sabemos se devemos esperar o pior ou o melhor, a uma mistura de ambos. A ciência não é um repertório de verdades absolutas e suas teorias são biodegradáveis , sob o efeito de descobertas novas. Foram os “desviantes”, de Pasteur a Einstein, passando por Darwin, que fizeram as teorias progredirem. Como a crise econômica, a pandemia abala todos os dogmas que governam a economia; como crise nacional, revela as carências de uma política que favoreceu o capital em detrimento da rentabilidade e da competitividade; como crise civilizacional nos leva a perceber as carências de solidariedade e de fraternidade e a intoxicação consumista que nossa sociedade desenvolveu. Continuamos a prever 2025 e 2050, mas somos incapazes de compreender 2020. Peter Sloterdijk – 2009
A situação atual do mundo se distingue pelo fato de não possuir uma estrutura de coimunidade para os membros da “sociedade mundial”; a solidariedade ainda é uma palavra extremamente vã. Hoje, como no passado, se pode aplicar ao termo a controvertida frase de Carl Schmitt, especialista em direito público: “Aquele que fala em humanidade quer enganar”. O motivo de tal afirmação é evidente: nos dias atuais, como
em tempos passados, as efetivas unidades de solidariedade são formatadas em nível familiar, tribal, nacional, imperial, e só há pouco tempo em estratégias regionais que funcionam – isso quando funcionam – de acordo com os respectivos formatos da diferença entre o semelhante e o “estrangeiro”. As alianças bem-sucedidas para a sobrevivência são, por conseguinte, particulares e, por isso, as “religiões mundiais” também não podem, de acordo com a natureza das coisas, ser mais do que meros provincialismos em larga escala. O próprio conceito de “mundo” é uma mera expressão ideológica, que promove o macroegoísmo do Ocidente e de outras grandes potências e não descreve a estrutura concreta de coimunidade de todos aqueles que se empenham na sobrevivência da cena global. Os sistemas particulares rivalizam uns com os outros, segundo uma lógica que habitualmente produz ganhos imunitários para uns e perdas imunitárias para outros. A humanidade não é um superorganismo – como apressadamente afirmam alguns teóricos da teoria dos sistemas. Até que algo de novo aconteça, ela não é nada mais do que um agregado de “organismos” hierarquizados, que jamais se integram numa unidade de nível global que seja capaz de funcionar. Toda história é uma história de combates entre sistemas imunitários.
Esopo
Um homem malvado apostou com uma pessoa que iria lhe provar que o oráculo de Delfos era falso. No dia marcado, pegou um pardalzinho, encobriu-o com o manto e foi ao santuário. Em pé, diante do oráculo, perguntou-lhe se o que estava segurando nas mãos era uma coisa viva ou sem vida. Sua intenção era, caso ele dissesse “sem vida”, mostrar o pardalzinho vivo, e, caso dissesse “viva” apresentá-lo morto depois de asfixiá-lo. E o deus, ciente de sua intenção velhaca, respondeu”: “Pare com isso, meu caro! Só depende de você se o que está trazendo é vivo ou morto”.
Fontes bibliográficas
Albert Camus. A peste. [1947]. Tradução de Valerie Rumjanek. 26a. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019.
Arthur Rimbaud. O barco bêbado. [1871]. Em Rimbaud livre. Tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1993.
Boris Cyrulnik. O traumatismo da epidemia provoca uma adaptação. Tradução de Edgard de Assis Carvalho. Paris: L’ OBS, nº 2890, 26/3-1/4.2020.
Carlos Drummond de Andrade. O sobrevivente. [1928]. Em Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013
Edgard de Assis Carvalho. Arautos do ódio e preservação da vida. (Ensaio inédito, abril de 2020).
Edgar Morin. A mundialização é uma interdependência sem solidariedade. Entrevistado por David Le Bailey e Sylvain Courage. Tradução de Edgard de Assis Carvalho. Paris: L’OBS, nº 2889,19-25 de março de 2020.
Edgar Morin. Esta crise nos leva a questionar nosso modo de vida, nossas reais necessidades mascaradas nas alienações do cotidiano. Entrevista com Nicolas Truong. Paris: Le Monde, 20/4/2020. Publicado em Carta Maior, abril 2020. Tradução de Aluísio Schumaker.
Edmilson Felipe da Silva. No orvalho do sonho. Poema inédito. Abril 2020.
Esopo. A rã médica e a raposa. Em Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Dezotti; ilustrações de Eduardo Berliner; apresentação de Adriane Duarte. São Paulo: Cosac Naify, 2013. [Originalmente reunidas por Demetrio de Faleros em 325 a.C].
Esopo. O homem malvado. Em Fábulas completas, op. cit.
Jean Baudrillard. O espírito do terrorismo. Em Margem 14. [Adrian Ribaric, Élvio Rodrigues Martins, eds.], Tradução de Mariza Perassi Bosco; revisão técnica Edgard de Assis Carvalho. São Paulo: EDUC, dezembro de 3002. (Artigo originalmente publicado no Le Monde, em 3/11/01).
Julia Kristeva. A humanidade redescobre a solidão existencial, o senso dos limites e da mortalidade. Entrevista ao Corriere della Sera. Tradução de Henri José Legrand, 29/3/2020. Tradução brasileira de Edgard de Assis Carvalho.
Johann Wolfgang von Goethe. Os sofrimentos do jovem Werther. [1787]. Segunda parte. Tradução, notas e posfácio de Erlon José Paschoal. São Paulo: Estação Liberdade, 2009.
Liev Tolstói. O trabalho, a morte e a doença (Uma lenda). [1903]. Em Os últimos dias. Tradução de Anastassia Bytsenkko, Belkiss Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider, Natalia Qiontero. São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011.
Michel Maffesoli. A pandemia é o sinal de uma crise civilizatória. Entrevistado por Bolivar Torres para O Globo. Rio de Janeiro: 4/4/2020.
Machado de Assis. A derradeira injúria. [1885]. Em Obra completa, volume III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. Nona reimpressão, 1997.
16
Matthieu Ricard. Para nós a liberdade. [Diante da morte, capitulo 17]. Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco. São Paulo: Editora Palas Athena. [edição brasileira prevista para 2020].
Peter Sloterdijk. Tu dois changer ta vie. De l’anthropotechnique. Tradução de Olivier Mannoni. Paris: Libella, 2011. [Perspective. L’impératif absolu, p 632/645]. Tradução brasileira de Edgard de Assis Carvalho.
Philip Roth. Nêmesis. [2010] Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
Primo Levi. É isto um homem? [1958]. Tradução de Luigi del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
Sigmund Freud. Considerações sobre a guerra e a morte. [1915]. Em Obras completas, volume 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Scott Atran. Uma experiência contra-natureza. Paris: L’OBS, nº 2890, op.cit.
Sylvie Angel. O humor é uma força que devemos recuperar. Paris: L’OBS, nº 2890, op. cit.
T.S. Eliot. A terra devastada. [1922]. Em Poemas. Organização, tradução e posfácio de Caetano W. Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018
No final de semana fiz a Tela Metamorfose do Amor em uma live on line e doei ao Movimento Costurando Máscaras Zona Oeste. Abri essa Vakinha para ajudar as mulheres continuarem costurando. A campanha faz parte da Rede Leopoldina Solidária e tem apoio do Observatório Vila Leopoldina – SP. A nossa meta de arrecadação R$1000,00 a verba será repassada integralmente para o movimento. O doador que fizer a maior doação receberá a tela em sua residência.
“As cidades afetivas investem em novas formas de convivialidade, como o slow food, os coletivos artístico-culturais, a economia solidário-colaborativa, os mandatos coletivos na política, todos em sintonia com os novos ideários, que reivindicam uma vida ecologizada para devolver às cidades a função política de ser um espaço coletivo para o bem viver”.
O Ensaio “Cidades afetivas: Advocacy como uma via convivialista na direção do bem viver” está publicado no site do Instituto de Estudos Avançados da Universidade São Paulo autoria de Vivian Blaso e integra as pesquisas em andamento no Programa Usp Cidades Globais sob a Supervisão da Professora Dra. Suzana Pasternak
Para ler o artigo na íntegra acesse o link: http://www.iea.usp.br/pesquisa/projetos-institucionais/usp-cidades-globais/artigos-digitais/cidades-afetivas-advocacy-como-uma-via-convivialista-na-direcao-do-bem-viver
Edgar Morin
L’OBS, 19-25/3/2020
Entrevista concedida a
David Le Bailey e Sylvain Courage.
Tradução: Edgard de Assis Carvalho
(Direitos de tradução cedidos pelo autor)
Abril 2020
No estado atual, qual o ensinamento que se pode tirar da pandemia do coronavírus?.
Esta crise mostra que a mundialização é uma interdependência sem solidariedade. O movimento da globalização produziu a unificação tecnoeconômica do planeta, mas não ampliou a compreensão entre os povos. Desde seu início, nos anos 1990, guerras e crises financeiras se multiplicaram. Os perigos planetários – ecologia, armas nucleares, desregulação da economia – criaram uma comunidade de destino para os humanos que não se conscientizaram disso. De modo imediato e trágico, o vírus deixa clara essa comunidade de destino. Tomaremos, enfim, consciência disso? A falta de solidariedade internacional e organismos comuns para adotar medidas na escala da pandemia faz com que as nações se fechem nelas mesmas.
Em seu discurso, o presidente Emmanuel Macron adverte sobre o perigo de uma “retomada nacionalista”…
Pela primeira vez, estamos diante de um verdadeiro discurso de presidente. Não se trata apenas de uma questão econômica e empresarial, mas do destino de todos os franceses, dos enfermos e dos cuidadores, das pessoas desempregadas, obrigadas a trabalhar em tempo parcial. Sua alusão à necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento pode ser indício de algo. O antídoto para a retomada nacionalista não é a retomada europeia, já que a Europa é incapaz de se unir: mas sim a formação de solidariedades internacionais, a começar pelos médicos e pesquisadores de todos os continentes.
Quais mudanças seriam necessárias para isso?
O coronavírus reitera veementemente que a humanidade como um todo deve buscar uma nova via capaz de abandonar o New Deal político, social, econômico. A nova via salvaguardaria e reforçaria serviços públicos como os hospitais que, há anos, na Europa passam por reduções insensatas. A nova via corrigiria os efeitos da mundialização criando zonas desmundializadas que se incumbiriam de salvaguardar as autonomias fundamentais…
Quais são essas “autonomias fundamentais”?
Em primeiro lugar, a autonomia de produtos alimentares. Na época da Ocupação, durante a Segunda Guerra Mundial, a agricultura francesa era diversificada, e isso permitiu alimentar a população a despeito dos ataques alemães. Hoje, mais uma vez, é preciso diversificar. Existe, igualmente, a autonomia da saúde publica. Muitos medicamentos hoje são produzidos na Índia e na China e corremos sérios riscos de passar por uma severa escassez. É preciso relocalizar o que é vital para uma nação.
A mundialização transforma a crise da saúde pública em crise geral?
Claro que sim. A decisão de Vladimir Putin de manter a produção do petróleo russo provocou uma baixa de preço na Arábia Saudita e nos Estados Unidos. O Texas, por exemplo, pode passar por graves dificuldades e talvez fazer com que Donald Trump perca a eleição presidencial… O pânico atinge também o mercado financeiro, e isso pode provocar um crash nas bolsas de valores, como o que ocorreu na chamada quinta-feira negra de 29 de outubro de 1929. Não se consegue controlar essas reações em cadeia. A crise gerada pelo vírus agrava a crise da humanidade estimulada por forças que ignoram qualquer tipo de controle.
Se fizermos uma comparação com a gripe espanhola de 1918-1919, objeto de uma verdadeira omertà da parte das autoridades, os governantes atuais se empenharam em dar mais transparência às suas ações. Isso não pode ser considerado como um efeito positivo da globalização?
Na época da gripe espanhola, ninguém queria que as populações, sobretudo os combatentes, tomassem consciência do flagelo. Essa opacidade é impossível nos dias de hoje. Mesmo o regime chinês não pôde esconder a informação, e puniu o herói que deu o sinal de alerta… As redes de informação permitiram que ficássemos a par do avanço da pandemia país por país. Mas isso não desencadeou uma cooperação internacional espontânea de pesquisadores e médicos. A OMS, assim como a ONU, é incapaz de fornecer os meios de resistência aos países mais desfavorecidos.
“Retornou-se aos tempos de guerra”: esta frase é muitas vezes citada para descrever a situação da Itália e da França. O senhor conheceu esse período. A analogia lhe serve de inspiração para alguma coisa?
Na época da Ocupacão Nazista, houve fenômenos de encarceramentos e confinamentos, como no caso dos guetos… Mas a grande diferença com os dias de hoje reside no fato de que, na dominação nazista, as medidas de confinamento eram impostas pelo inimigo, enquanto agora elas se impõem contra o inimigo, o vírus. Após alguns meses da Ocupação alemã, as restrições de abastecimento começaram a aparecer. Não chegamos ainda a esse nível, mas já existem momentos de pânico. Mas se essa crise continuar, com a redução dos transportes de mercadorias em nível internacional, pode-se prever um retorno dos racionamentos. Mas a analogia para por aí. Não estamos no mesmo tipo de guerra.
Pela primeira vez desde 1940, escolas e universidades foram fechadas…
É verdade, mas naquela época o fechamento foi bem provisório. A derrota da França ocorreu em junho, no momento em que as férias começavam. Em outubro, as escolas foram reabertas.
O que se pode esperar do confinamento? O medo? A desconfiança entre os indivíduos? Ou, ao contrário, o desenvolvimento de novas relações com os outros?
Vivemos numa sociedade na qual as estruturas tradicionais de solidariedade se degradaram. Um dos maiores problemas é restaurar as solidariedades entre vizinhos, entre trabalhadores, entre cidadãos… Com as restrições que sofremos agora, as solidariedades vão ser reforçadas, por exemplo, entre os pais e os filhos que não estão indo às escolas. As possibilidades de consumo vão ser reduzidas e podemos aproveitar a oportunidade para repensar o consumo desenfreado ou, melhor dizendo, a dependência, o “consumo drogado”, essa intoxicação concernente a produtos sem utilidade real e substituir a quantidade pela qualidade.
Provavelmente, nossa relação com o tempo também vai mudar…
Claro. Graças ao confinamento, a esse tempo que recuperamos, que não é mais picado, cronometrado, um tempo que não se resume a andar de metrô-ir ao trabalho-voltar para casa e dormir, poderemos nos reencontrar a nós mesmos, perceber quais são as necessidades essenciais como o amor, a amizade, a ternura, a solidariedade, a poesia da vida… O confinamento pode ajudar a começar uma desintoxicação do nosso modo de vida e a compreender que o bem-viver implica o florescimento de nosso “Eu”, mas sempre entre os diversos “Nós”.
Em última análise, essa crise pode ser paradoxalmente salutar?
Fiquei muito emocionado ao ver mulheres italianas nas sacadas de suas casas cantarem esse hino de fraternidade denominado “Irmãos de Itália”. Devemos recuperar uma solidariedade nacional que não seja mais fechada e egoísta e sim aberta para nossa comunidade de destino “terrestre”. Antes do surgimento do vírus, os seres humanos de todos os continentes tinham os mesmos problemas: a degradação da biosfera, a proliferação das armas nucleares, a economia sem regulação que só faz ampliar as desigualdades. Não resta dúvida de que essa comunidade de destino existe, mas como as mentes estão angustiadas, em vez de tomar consciência disso, elas se refugiam num egoísmo nacional ou religioso. Que fique bem claro, precisamos de uma solidariedade nacional que é essencial, mas se não compreendermos que é preciso uma consciência comum do destino humano, se não ampliarmos os laços de solidariedade, se o pensamento político não mudar, a crise de humanidade se agravará cada vez mais. A mensagem do vírus é clara. Pior para nós, se não quisermos entendê-la.
Plataforma reúne iniciativas cidadãs que trabalham para conter os impactos da pandemia do coronavírus no Brasil.
Nas primeiras semanas desde os primeiros casos de contágio do coronavírus, uma série de iniciativas cidadãs de solidariedade surgiram espontaneamente para combater os impactos da pandemia. Em momentos de crise, a solidariedade e a criatividade aparecem como resposta para soluções dos mais diversos problemas. Pensando em consolidar uma plataforma que reúna, divulgue e multiplique essas iniciativas, um grupo de voluntários criou o Segura a Onda.
A iniciativa originou-se na Espanha com a plataforma frenalacurva.net. Devido ao seu sucesso, ela está sendo replicada em outros países além do Brasil como Colômbia, México, Costa Rica, França, Equador e Uruguai.
O grupo entende que nesses momentos de crise a responsabilidade cidadã apresenta-se como alternativa para resolução de problemas complexos e as iniciativas cidadãs podem dar respostas rápidas e eficientes.
Luis Eduardo Taveres, Cientista social e pesquisador de assuntos relacionados à “Tecnologia, Cultura e Sociedade, um dos responsáveis pela plataforma para o Brasil, observa: “Nos primeiros dias de quarentena, por volta de 16 de março, vendo as notícias que chegavam da Europa e as medidas que começavam a ser tomadas no Brasil, percebi que estávamos diante de um acontecimento gerador de múltiplos e profundos efeitos sociais. E que ao invés do pânico e de atitudes individuais, precisávamos de ações coletivas coordenadas para frear a propagação do vírus e superarmos a pandemia. Então, fiquei bastante animado quando soube da existência de uma plataforma como Frena La Curva e da articulação para construção de um capítulo brasileiro desta experiência e logo me engajei. O processo de construção coletiva fluiu super bem e trabalhar nele, assim como conhecer tantas pessoas engajadas por aí nas mais diversas iniciativas de enfrentamento a essa crise também é algo que ajuda a manter a mente sã durante esse período de confinamento e diante das tragédias diárias. Podemos ter em vista que a força cooperativa de todas essas redes de solidariedade que se auto-organizam na sociedade civil signifiquem valiosas lições civilizatórias tiradas dessa catástrofe e que fortaleçam a consciência e importância dos bens comuns”.
Cátia Kitahara, 46, designer de interface especialista em WordPress conta que utilizou sua experiência profissional de mais de dez anos para colocar o site em poucos dias no ar. “O site nada mais é que um fórum old school bem no estilo da época em que a internet ainda era aberta e livre, quando iniciativas como essa pipocavam e as pessoas se apropriavam mais das ferramentas ao invés de se submeterem aos formatos impostos pelas redes sociais que hoje “substituem” a internet”, comentou a designer.
Ela conta também que fazia tempo que não participava de uma iniciativa como essa, totalmente colaborativa e orgânica. “Somos uma rede de pessoas que colocaram-se à disposição para trabalharem juntas sem nunca terem se conhecido. Uma equipe forte se criou rapidamente e logo começamos a trabalhar como se já nos conhecêssemos. Isso é muito bom porque dá um alento e torna a situação atual mais suportável”, disse Cátia Kitahara.
A plataforma funciona como um guia onde qualquer um pode adicionar iniciativas ou ações de sua cidade ou bairro dentro dos seguintes temas: fontes confiáveis; informação confiável; cuidados; quarentena; educação; cultura; trabalho e renda; redes de consumo; ciência aberta; populações ameaçadas; redes de solidariedade; gênero; e moradia e aluguel.
Para participar, o usuário deve registrar-se no site com um endereço de email e senha e seguir o manual de uso. Existe uma equipe de moderadores voluntários que está acompanhando todas as postagens e fazendo a curadoria do conteúdo. Caso você queira ser um moderador, envie um email para: contato@seguraaonda.com.br
Acesse o site e faça parte dessa rede de colaboradores. Ajude-nos a dar uma resposta coletiva pensando, sobretudo, nas parcelas da população em piores condições nesse momento.
Serviço
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De que cidade viemos e em que cidade vivemos? Que cidade vislumbramos e como podemos construí-la? Qual a cidadeporvir? Trataremos dessas questões e das experiências coletivas em curso em nossas cidades, com suas reivindicações e práticas que nos conduzem aos universos da complexidade, da dádiva, da ecologia, da convivialidade e da vida em comum. Agende em seu calendário, dia 26 de março
As Cidades Inteligentes nos abrem inúmeras possibilidades, uma delas são os indicadores utilizados para avaliar e monitorar situações que possam ser transformadas visando melhores resultados que auxiliam tanto a vida dos gestores públicos como as de seus usuários que intencionam uma vida mais sustentável. Cidades Afetivas se apresentam como um caminho híbrido na direção das tendências para o futuro da vida em comum que intencionam devolver às cidades o local da festa e do acontecimento. Cidades Afetivas abrem espaços para a convivialidade. Os coletivos que incentivam as práticas comunitárias como; a caminhabilidade e as hortas urbanas, não são fenômenos isolados, eles se complementam e se retroalimentam ao intencionarem uma vida na direção do bem viver incluindo os direitos de todos os seres viventes e existentes no planeta como os rios, as nascentes, os animais. Das Cidades Inteligentes às Cidades Afetivas propõem uma reflexão colaborativa a respeito de qual futuro queremos construir frente aos desafios do século XXI.
Palestrante Vivian Blaso
Relações Públicas. Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Pesquisadora no Pós Doutorado em Cidades Globais no IEA USP, Professora na FAAP, Palestrante, Coach, Autora do livro Cidades em Tempos Sombrios. Barbárie ou Civilização, Sócia na Conversa Sustentável. Apaixonada pelas cidades e seus movimentos. Ativista da sustentabilidade, dedica-se à educação, convivialismo e ao bem viver. Artista. Linha de Pesquisa: Diversidades Culturais e Pensamento Complexo
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