edgar morin

A mundialização é uma interdependência sem solidariedade por Edgar Morin

Edgar Morin
L’OBS, 19-25/3/2020
Entrevista concedida a
David Le Bailey e Sylvain Courage.
Tradução: Edgard de Assis Carvalho

(Direitos de tradução cedidos pelo autor)

Abril 2020

No estado atual, qual o ensinamento que se pode tirar da pandemia do coronavírus?.

Esta crise mostra que a mundialização é uma interdependência sem solidariedade. O movimento da globalização produziu a unificação tecnoeconômica do planeta, mas não ampliou a compreensão entre os povos. Desde seu início, nos anos 1990, guerras e crises financeiras se multiplicaram. Os perigos planetários – ecologia, armas nucleares, desregulação da economia – criaram uma comunidade de destino para os humanos que não se conscientizaram disso. De modo imediato e trágico, o vírus deixa clara essa comunidade de destino. Tomaremos, enfim, consciência disso? A falta de solidariedade internacional e organismos comuns para adotar medidas na escala da pandemia faz com que as nações se fechem nelas mesmas.

Em seu discurso, o presidente Emmanuel Macron adverte sobre o perigo de uma “retomada nacionalista”…

Pela primeira vez, estamos diante de um verdadeiro discurso de presidente. Não se trata apenas de uma questão econômica e empresarial, mas do destino de todos os franceses, dos enfermos e dos cuidadores, das pessoas desempregadas, obrigadas a trabalhar em tempo parcial. Sua alusão à necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento pode ser indício de algo. O antídoto para a retomada nacionalista não é a retomada europeia, já que a Europa é incapaz de se unir: mas sim a formação de solidariedades internacionais, a começar pelos médicos e pesquisadores de todos os continentes.

Quais mudanças seriam necessárias para isso?

O coronavírus reitera veementemente que a humanidade como um todo deve buscar uma nova via capaz de abandonar o New Deal político, social, econômico. A nova via salvaguardaria e reforçaria serviços públicos como os hospitais que, há anos, na Europa passam por reduções insensatas. A nova via corrigiria os efeitos da mundialização criando zonas desmundializadas que se incumbiriam de salvaguardar as autonomias fundamentais…

Quais são essas “autonomias fundamentais”?

Em primeiro lugar, a autonomia de produtos alimentares. Na época da Ocupação, durante a Segunda Guerra Mundial, a agricultura francesa era diversificada, e isso permitiu alimentar a população a despeito dos ataques alemães. Hoje, mais uma vez, é preciso diversificar. Existe, igualmente, a autonomia da saúde publica. Muitos medicamentos hoje são produzidos na Índia e na China e corremos sérios riscos de passar por uma severa escassez. É preciso relocalizar o que é vital para uma nação.

A mundialização transforma a crise da saúde pública em crise geral?

Claro que sim. A decisão de Vladimir Putin de manter a produção do petróleo russo provocou uma baixa de preço na Arábia Saudita e nos Estados Unidos. O Texas, por exemplo, pode passar por graves dificuldades e talvez fazer com que Donald Trump perca a eleição presidencial… O pânico atinge também o mercado financeiro, e isso pode provocar um crash nas bolsas de valores, como o que ocorreu na chamada quinta-feira negra de 29 de outubro de 1929. Não se consegue controlar essas reações em cadeia. A crise gerada pelo vírus agrava a crise da humanidade estimulada por forças que ignoram qualquer tipo de controle.

Se fizermos uma comparação com a gripe espanhola de 1918-1919, objeto de uma verdadeira omertà da parte das autoridades, os governantes atuais se empenharam em dar mais transparência às suas ações. Isso não pode ser considerado como um efeito positivo da globalização?

Na época da gripe espanhola, ninguém queria que as populações, sobretudo os combatentes, tomassem consciência do flagelo. Essa opacidade é impossível nos dias de hoje. Mesmo o regime chinês não pôde esconder a informação, e puniu o herói que deu o sinal de alerta… As redes de informação permitiram que ficássemos a par do avanço da pandemia país por país. Mas isso não desencadeou uma cooperação internacional espontânea de pesquisadores e médicos. A OMS, assim como a ONU, é incapaz de fornecer os meios de resistência aos países mais desfavorecidos.

“Retornou-se aos tempos de guerra”: esta frase é muitas vezes citada para descrever a situação da Itália e da França. O senhor conheceu esse período. A analogia lhe serve de inspiração para alguma coisa?

Na época da Ocupacão Nazista, houve fenômenos de encarceramentos e confinamentos, como no caso dos guetos… Mas a grande diferença com os dias de hoje reside no fato de que, na dominação nazista, as medidas de confinamento eram impostas pelo inimigo, enquanto agora elas se impõem contra o inimigo, o vírus. Após alguns meses da Ocupação alemã, as restrições de abastecimento começaram a aparecer. Não chegamos ainda a esse nível, mas já existem momentos de pânico. Mas se essa crise continuar, com a redução dos transportes de mercadorias em nível internacional, pode-se prever um retorno dos racionamentos. Mas a analogia para por aí. Não estamos no mesmo tipo de guerra.

Pela primeira vez desde 1940, escolas e universidades foram fechadas…

É verdade, mas naquela época o fechamento foi bem provisório. A derrota da França ocorreu em junho, no momento em que as férias começavam. Em outubro, as escolas foram reabertas.

O que se pode esperar do confinamento? O medo? A desconfiança entre os indivíduos? Ou, ao contrário, o desenvolvimento de novas relações com os outros?

Vivemos numa sociedade na qual as estruturas tradicionais de solidariedade se degradaram. Um dos maiores problemas é restaurar as solidariedades entre vizinhos, entre trabalhadores, entre cidadãos… Com as restrições que sofremos agora, as solidariedades vão ser reforçadas, por exemplo, entre os pais e os filhos que não estão indo às escolas. As possibilidades de consumo vão ser reduzidas e podemos aproveitar a oportunidade para repensar o consumo desenfreado ou, melhor dizendo, a dependência, o “consumo drogado”, essa intoxicação concernente a produtos sem utilidade real e substituir a quantidade pela qualidade.

Provavelmente, nossa relação com o tempo também vai mudar…

Claro. Graças ao confinamento, a esse tempo que recuperamos, que não é mais picado, cronometrado, um tempo que não se resume a andar de metrô-ir ao trabalho-voltar para casa e dormir, poderemos nos reencontrar a nós mesmos, perceber quais são as necessidades essenciais como o amor, a amizade, a ternura, a solidariedade, a poesia da vida… O confinamento pode ajudar a começar uma desintoxicação do nosso modo de vida e a compreender que o bem-viver implica o florescimento de nosso “Eu”, mas sempre entre os diversos “Nós”.

Em última análise, essa crise pode ser paradoxalmente salutar?

Fiquei muito emocionado ao ver mulheres italianas nas sacadas de suas casas cantarem esse hino de fraternidade denominado “Irmãos de Itália”. Devemos recuperar uma solidariedade nacional que não seja mais fechada e egoísta e sim aberta para nossa comunidade de destino “terrestre”. Antes do surgimento do vírus, os seres humanos de todos os continentes tinham os mesmos problemas: a degradação da biosfera, a proliferação das armas nucleares, a economia sem regulação que só faz ampliar as desigualdades. Não resta dúvida de que essa comunidade de destino existe, mas como as mentes estão angustiadas, em vez de tomar consciência disso, elas se refugiam num egoísmo nacional ou religioso. Que fique bem claro, precisamos de uma solidariedade nacional que é essencial, mas se não compreendermos que é preciso uma consciência comum do destino humano, se não ampliarmos os laços de solidariedade, se o pensamento político não mudar, a crise de humanidade se agravará cada vez mais. A mensagem do vírus é clara. Pior para nós, se não quisermos entendê-la.

Edgar Morin hoje no Sesc Pinheiros

Edgar Morin estará hoje no Sesc Pinheiro em São Paulo para uma conferência sobre o seu livro: “Sobre a Estética” traduzido por Edgard de Assis Carvalho e Marisa Perassi Bosco.
“Antes de ser uma característica própria da arte, a estética constitui um elemento fundamental da sensibilidade humana. O sentimento estético é um sentimento de prazer que pode se intensificar em maravilhamento e felicidade. Poode ser suscitado por um espetáculo natural, uma obra de arte, mas também por objetos e obras que estetizamos. De onde provém a criatividade artística? O que denominamos inspiração ou gênio? Do transe xamã ao poeta, da mimese do escritor à do ator, qual é a experiência in vivo do artista?

A conferência será transmitida ao vivo pelo facebook e Youtube https://www.youtube.com/channel/UCESs365L1Ccnq4q3J5yZ7nQ

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13342_ENTREVISTA+EDGAR+MORIN+E+SUA+COMPLEXIDADE?fbclid=IwAR0Rb_GTotoVJElVzk8e6xa1uTXK2-jfCFyKauq-Jebtbp5Fz-Af-AL52QE

Artigo: Rumo à Metamorfose Democrática?

O movimento triádico individuo-espécie-sociedade revigora a regeneração contínua e simultânea entre democracia e diversidade de ideias. Tal regeneração acentua-se nas relações antagônicas, concorrentes, complementares que fundamentam a política como um sistema multidimensional complexo. O processo pretensamente civilizatório contido na mundialização traz consigo a destruição das biodiversidades no planeta.
A despolitização da política, que se autodissolve na administração, na técnica, na burocracia, na economia e na quantificação resulta na política fragmentada e impede a compreensão da vida, dos sofrimentos, dos desamparos, das solidões, das necessidades não quantificáveis.
A insustentável condição humana na era planetária é fruto das profecias neoliberais, que apostaram no quadrimotor “ciência-técnica-economia-lucro” e na sua capacidade de salvaguardar o futuro da humanidade. Fruto da política fragmentada, o excesso de disciplinamento produz sujeitos experts, organizações compartimentalizadas, que dão origem a indivíduos dissociados da natureza e da cultura e acabam impedidos de ver que a dimensão humana é de caráter multidimensional. Tudo isso contribui para a gigantesca regressão democrática, com os cidadãos apartados dos problemas fundamentais da cidade.
Presente nas democracias atuais, tal fenômeno é resultado da cosmovisão cartesiana da qual o quadrimotor “ciência-técnica-economia-lucro” é o fio condutor do atual estágio de humanidade. As policrises políticas, econômicas, culturais, ecológicas, sociais atestam a inverdade contida nessa formulação considerada hegemônica.
Dissociados e fragmentados, os indivíduos se deixam anestesiar pelo consumismo, o que tem levado a um novo estágio de barbárie na era planetária. Esse processo também produz um sujeito apartado da sua relação com a comunidade. O coletivo fica à margem da sociedade; mesmo assim tenta resistir aos desafios impostos pelo sistema neoliberal; a noção de coletivo ressurge em recentíssimos movimentos sociais que ocupam praças, constroem hortas urbanas, preservam parques, ocupam artisticamente espaços, na tentativa de resgatar as invisibilidades das cidades contemporâneas.
Os ativismos urbanos insurgentes acionam outras vias na direção do futuro para a humanidade, e tal fenômeno pode ser observado sob a luz da ideia de “Metamorfose”. Morin reitera que a metamorfose traz consigo o princípio da incerteza e ao mesmo tempo da esperança em prol de um futuro sempre imprevisível. Apostar na regeneração democrática, no resgate da solidariedade e da responsabilidade, é colocar em prática uma ética da espécie que realize a unidade planetária contida na diversidade natural e cultural.
Informações para imprensa
:https://www.cidadesafetivas.com.br/ e https://www.conversasustentavel.com.br/

email: imprensa@conversasustentavel.com.br

Metamorfose, Ilustração em aquarela by Vivian Blaso
Metamorfose. Ilustração em aquarela by Vivian Blaso

Casa do Saber – Cidades Afetivas e a Sociedade do Cansaço

https://casadosaber.com.br/sp/cursos/ferias/cidades-afetivas-e-a-sociedade-do-cansaco.html

Cidades Afetivas e a Sociedade do Cansaço

Edgar Morin, Byung-Chul Han e Michel Serres

com Vivian Blaso

As cidades são sistemas abertos: sua dinâmica emite e recebe mensagens, e é neste contexto que o homo urbanus afeta e é afetado. As suas vivências e experiências refletem a sociedade do cansaço. Eros agoniza! Nas cidades, o homem contemporâneo significa e ressignifica o seu sentido de existência no mundo. Compreender as cidades a partir do homo urbanus traz o desafio de sair da posição de sujeitos passivos, permitindo a compreensão das subjetividades e das intermitências da alma que transitam entre o homo sapiens demens e o homo urbanus.

O encontro coloca um diálogo entre três grandes pensadores dos dias atuais: Edgar Morin, Byung-Chul Han e Michel Serres. São eles que norteiam as reflexões sobre cidades e afetividades, sociedade do cansaço e agonia de Eros, natureza e cultura. No encontro, a professora apresenta o seu trabalho “Cidades Afetivas”, mostrando como os afetos conduzem as possibilidades de reconhecimento de si e do outro a partir do processo evolutivo do homem no espaço urbano.

A aula aberta é gratuita e destinada a apresentar um novo professor ao público da Casa do Saber e, para os novos alunos, é também uma oportunidade de ter contato com o ambiente e a dinâmica das aulas. O tema, geralmente panorâmico, serve como uma porta de entrada para assuntos a serem aprofundados em um futuro curso ministrado pelo professor da aula aberta

Oficinas do Pensamento.A refundação da ética em tempos líquidos sombrios e globalizados. 

No dia4/5, 14h30  irei participar da Oficinas do Pensamento: A refundação da ética em tempos líquidos sombrios e globalizados. Iremos dialogar sobre  O Método 6 de Edgar Morin. A obra foi traduzida por Juremir Machado da Silva. e publicada em Porto Alegre pela Sulina, 2015.
Local: PUCSP – Sala Tecnológica 305

Evento coordenado por Edgard de Assis Carvalho coordenador do Complexus Núcleo de Estudos da Complexidade na PUCSP que integra a CIUEM – Cátedra Itinerante UNESCO Edgar Morin

Evento é gratuito e aberto aos interessados!

Informações acesse:  https://www.facebook.com/complexusnucleo/

Lançamento do livro: Espiral de Ideias. Textos de Antropologia Fundamental

Lançamento do livro: Espiral de Ideias. Textos de Antropologia Fundamental por Edgard de Assis Carvalho professor Titular departamento de Antropologia na PUCSP.

Prólogo

“Símbolos de evolução e movimento presentes em todas as culturas humanas, as espirais expressam a transitoriedade das expressões culturais. Edgar Morin se refere a elas em várias passagens dos seis volumes de O Método. O processo do conhecimento é sempre constituído por esses circuitos provisórios que se alimentam da história e travam com ela um diálogo permanente. Espirais, portanto, são sistemas abertos, dissipativos, hologrâmicos. O Anticristo, o método sempre vêm no fim e jamais constitui um receituário prévio a ser aplicado a objetos inertes. Método é caminho, errância, viagem, contrabando, tradução. Foi assim que surgiu a ideia-título deste livro. Instado por amigos, comparsas, colaboradores, reuni um conjunto de ditos e escritos meus, espalhados nos arquivos da minha biblioteca de Babel”.  Edgard de Assis Carvalho, março de 2017.

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